Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

delacroix

«Era uma vez um sonho. Um sonho que sobrevoava a indolência do homem comum, do homem vulgar. Um dia uma voz no lugarejo se lembrou de questionar que sonho seria esse, que todos sabiam existir, mas ninguém se atrevera a sonhar. O sonho era a liberdade».

- Que sonho mais estranho avô, quem sonha com liberdade?

-Liberdade é independência, caríssimo pensador, é desafogo, é espontaneidade e autonomia para se ser feliz. Quem não sonha com felicidade?

Alfredo balanceia uma vez mais o cavalo no tabuleiro de xadrez, descrevendo um L. Bravateia um sorriso antes de finalmente o pousar numa das casas. O tabuleiro encontra-se aos pés da maca de Augusta da Costa, que continua amarrada à vida pelo emaranhado de fios que a ligam às máquinas hospitalares.

- Estará também a mãe a sonhar avô?

 

Gotas de suor arrastam-se atabalhoadamente pelas costas de um e queixo do outro. Numa valsa destemida e promíscua os dois corpos dançam deitados ao cheiro do orvalho, rebolando em conjunto pela mata no coração de Lisboa. Tal e qual como vieram ao mundo, descobrindo mais uma vez todo o deleite que cabe na imaginação de um ser humano, estremecendo os orvalhos à volta dos dois, na longa e derrapante relva de Monsanto, consomem-se mutuamente.

Já passara algum tempo desde que Manuel Buiça se reunira assiduamente com outros companheiros carbonários, pelo menos aos olhos de Augusta da Costa. O último encontro parece ter sido de desmedida importância, uma vez que a sociedade preferiu cessar a sua actividade durante o chamado “tempo de segurança” para não levantar suspeitas.

-Suspeitas? – perguntou destemidamente Augusta da Costa.

-Sim, sabes fielmente que a corte não deixa margem para perplexidades. Se queremos lutar pelos nossos ideais, não podem haver indeterminações, tudo tem de ser pensado ao pormenor.

Augusta da Costa não deixava de se sentir arrojada, nunca se envolvera tanto na luta de uma filosofia compassiva aos ideais liberais que partilha com o marido. Era um assunto maioral na vida do seu benquisto e isso ainda a exaltava mais. Como amante de um dos principais líderes sabia bem do que as sociedades secretas desta essência eram capazes de fazer pela luta dos seus ideais, e isso deixava-a ainda mais ansiosa.

-Muito em breve o Portugal que conhecemos deixará de existir, seremos uma metamorfose revolucionária! O nosso país eclodirá segundo os princípios da liberdade, igualdade e fraternidade – as suas palavras consorciam com o brilho inflame dos seus olhos, iluminando a sua própria utopia.

 

- Avô, já podemos acordar a mãe? Só um bocadinho, ela já dormiu o bastante, agora tenho saudades.

- Ela vai acordar assim que me ganhares uma partida de xadrez – e ao responder Alfredo faz uma lenta jogada – Xeque-mate!

 

O Rei D. Carlos I, e seu filho, o príncipe herdeiro D. Luís Filipe, descem da sumptuosa carroça, cumprimentando a multidão que se forma em sua honra.

- Assassino! Quer matar o Rei! Acudam – grita uma voz de um qualquer homem no meio da multidão que aponta para dois indivíduos.

Manuel Buiça olha rapidamente para a sua amante, e lança um olhar de misericórdia e clemência. Augusta da Costa esboça um autêntico e simples sorriso.

A serenidade instalou-se. A calma que paira no Terreiro do Paço é soberba. As pessoas na rua olham atentamente, boquiabertas, para o baque daquelas pobres almas estendidas no chão. O dia mantém a sua postura próspera e o sol calcina toda a cidade. Na calçada começam a gotejar as primeiras bagadas de sangue dos dois amantes, que finalmente se fundem. Olhando nos olhos um do outro Manuel Buiça sorri, e Augusta da Costa solta uma lágrima. Na cabeça dos dois turbilhões de ideias e imagens não os abandonam, dando trabalho aos neurónios ainda sobreviventes. Manuel Buiça pensa que está a morrer em nome da liberdade, e que um sonho nunca morrerá enquanto houver alguém que ouse sonhar. Augusta da Costa pensa nos seus dois filhos, Elvira e Manuel. Com quem ficarão? A inocência e pureza de duas crianças que detêm nos seus genes o sonho de uma minhoca que se metamorfoseia e voa em liberdade. Dois dos guardas seguram ainda a arma do crime. Seguidamente recolhem, deixando como exemplo de autoridade os dois cadáveres na praça.


Uma das máquinas que promete a sobrevivência de Augusta da Costa disparou um impaciente alarme. Rapidamente chega uma mulher vestida de branco, com uma touca que segura arquitectonicamente todos os fios de cabelos obstinados na cabeça. Depressa o acanhado quarto de hospital se apinha de enfermeiras. Avô e neto espreitam do outro lado do vidro que filtra a esperança de que um dia tudo voltará a ser como antes.

Augusta da Costa de súbito panteia os seus grandes olhos azuis. Ressuscita assim de um molesto coma de umas dezenas de dias. Intempestivamente a barafunda de enfermeiras torna-se imperceptível, o importante agora é o que ficou.

 

- Dr. Pires, a minha filha, que está na ala dos cuidados intensivos, acabou de regressar de um coma, mas parece-me diferente, distante, será que tem um minuto? – interpela Alfredo ao chocar num dos labirínticos corredores do hospital contra o ilustre Dr. José Cardoso Pires.

- Profundis Valsa Lenta, encontre-me na cantina do hospital dentro de 20 minutos.

Na cantina passam gentes de todas as estirpes. O ponteiro vai marcando o passar do tempo no velho SEIKO, relógio de pulso. E com severa pontualidade, José Cardoso Pires puxa uma cadeira e junta-se a Alfredo.

- Peço desculpa por incomodá-lo Dr., mas tenho questões na minha cabeça que não se emudecem por nada. A minha filha Augusta, que acabou de acordar de um coma, está diferente. – o médico pede um café a um dos auxiliares que passa atarefadamente -  Tem no olhar a odisseia de uma história inacabada, não me reconhece e confunde o próprio filho com outro rapaz, será possível? Acorda a meio da noite gritando por independência e chora as mágoas de uma tristeza que nunca viveu.

- É sempre difícil sabermos o que é que se vivencia quando se está em coma profundo. Pela minha experiência pessoal, vi o coma como um sonho branco, como quando acordamos de um sonho a meio da noite com o coração alvoraçado e podemos jurar que vivemos todas as memórias que estão na reminiscência da nossa cabeça. Até hoje não consigo dizer com certezas que não o vivi, porque não é o que sinto. O que lhe posso dizer é que não se aflija demasiado, provavelmente o que a sua filha tem são imagens, memórias desconexas de um sonho branco.

 

- Augusta da Costa? – questiona um dos vigilantes do hospital ao entrar no quarto. A resposta não passa de um aceno de cabeça, com um olhar distante e desprezado para a única janela do quarto.

- Tem correspondência, anime-se. Consegue assinar aqui?

Augusta da Costa começa a interessar-se pelo envelope amarrotado que parece vir do século passado, atado com um cordel de sisal e uns selos igualmente arcaicos e gastos. Os seus olhos começam a chamejar curiosidade e esperança de que não estaria de todo apaixonadamente demente. Debuxa um genuíno sorriso e desata o rançoso cordel. Respira fundo o manuscrito antes de abrir novamente os olhos. O cheiro profetisa o que ela anseia ler.

 

 

"Manuel dos Reis da Silva Buiça, fui casado com D. Hermínia Augusta da Costa Silva Buíça. Ficaram-me de minha mulher dois filhos, a saber: Elvira e Manuel. Meus filhos ficam pobrissimos; não tenho nada que lhes legar senão o meu nome e o respeito e compaixão pelos que soffrem. Peço que os eduquem nos principios da liberdade, egualdade e fraternidade que eu commungo e por causa dos quaes ficarão, porventura, em breve, orphãos.

Lisboa, 28 de janeiro de 1908.

Manuel dos Reis da Silva Buiça. "

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rita às 01:16
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